quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Cultos afro-brasileiros


A resistência uma cultura que luta para deixar as senzalas.

Durante os trezentos e cinqüenta anos de tráfico de escravos, os quatro milhões de africanos trazidos para o Brasil e destinados ao duro trabalho nas lavouras, não trouxeram apenas a sua força que ajudou a desenvolver o país, mas também as suas crenças, tradições e costumes que influenciaram profundamente a formação da cultura popular brasileira.
Subsistindo durante séculos de exclusão étnica e social, as manifestações religiosas dos negros tinham que ser realizadas secretamente nas senzalas, sempre na calada da noite, longe dos olhos dos seus Senhores. Estes negros, na sua maioria sudaneses, bantos, jejês e haussas, tinham crenças diferentes, apesar de terem em comum a fé em um só Deus criador, Olodumare, e nas forças da natureza.
Da grande mistura de grupos raciais africanos e como conseqüência do silencioso esforço investido pelos negros para não deixarem morrer sua cultura e suas crenças, uma harmoniosa mistura de crenças e ritos africanos deram origem ao que conhecemos hoje como Candomblé, uma recriação brasileira da religiosidade africana.
Esta religião de milhares de brasileiros que ainda luta para deixar de vez as senzalas, ganha aos poucos a atenção de pesquisadores, acadêmicos e da mídia. Mais a resistente crença dos negros só começou a aparecer para a sociedade quando grandes artistas brasileiros como Gal, Caetano e Bethânia – filhos da Bahia e de Menininha, cantaram os deuses africanos e a sua mais festejada sacerdotisa, a Mãe Menininha do Gantois. As cantigas e as saudações dos orixás também estiveram na boca de Clara Nunes, Clementina de Jesus e Martinho da Vila. E foi assim, através da música, que os nomes de Yemanjá, Oxalá e outras divindades ficaram conhecidas entre nós.
O Candomblé sobreviveu a séculos de proibições porque não foi difícil para os negros adotarem, como disfarce, os santos católicos em sincretismo com os orixás africanos. Em meio a muita discriminação, opressão e sobretudo segredo que a religiosidade afro-descendente resistiu a repressão até o fim formal da escravidão. Entretanto os cultos negros ainda foi caso de policia no Brasil até primeira metade do século passado, envolto em todos os preconceitos que uma religião “de negros” podia carregar, os praticantes eram presos acusados de feitiçaria, os terreiros eram fechados e as representações das divindades profanadas. Reuniões de negros eram proibidas, pois se temiam motins contra os brancos. Impossível esquecer também a evangelização forçada de milhares de negros.
Tudo isso serviu para criar o mistério, o medo e a incompreensão que até hoje cercam o candomblé, suas ramificações como a Umbanda e os cultos de matrizes africanas em geral.
Começava a luta do povo-de-santo pela visibilidade e preservação de suas crenças e ao mesmo tempo, uma mobilização dos seus seguidores contra o preconceito e a discriminação.
O povo-do-axé se juntou, se organizou e ganhou força, o Candomblé já havia se espalhado pelo Brasil e, em 1973, já era iniciado o primeiro sacerdote na nossa região: Oba Kembê. Para dar maior voz a causa, surgiram necessárias associações e grupos dispostos a erguer a bandeira das religiões afro. Dentre as Ongs existentes, a FIUTCAB (Federação Interestadual União das Tradições e Cultura Afro Brasileira) tem sido uma presença nova e dinâmica na defesa desta vasta cultura.
Fundada há doze anos pelo pioneiro sacerdote Walter Alves de Oliveira, tem sede em Várzea Paulista e congrega mais de quarenta terreiros na região de Jundiaí e tem associados na capital e no interior de Minas Gerais. A organização já promoveu congressos estaduais, debates e mesas abertas com a participação de sacerdotes, antropólogos e estudiosos renomados, nas cidades de Jundiaí e Várzea Pta.
A disposição dos voluntários (a entidade não tem fins lucrativos) da Federação já produz bons frutos no objetivo de chamar a atenção da sociedade e incentivá-la a refletir sobre a intolerância que representa uma das faces mais terríveis do racismo brasileiro.
A Constituição Federal assegura a liberdade de crença, mais muito além disso, é preciso incentivar as políticas de ações afirmativas que assegurem a erradicação total de toda forma de descriminação, seja social, racial, de gênero ou religiosa. Ações que contribuem para concretização de uma sociedade onde as minorias são respeitadas e as diferenças superadas.

Rafael Vertuan

Campanha FIUTCAB 2007
Publicado no Jornal Sou + Jundiaí - SP
Edição 13 Ano 1
Foto 1 - Roda de Candomblé - Vila Aparecida
Foto 2 - Lázaro Aparecido Pinto de Camargo (Obá Kembê)

2 comentários:

Marcelo Novaes disse...

Olá, Rafael.
Teu blog já está lá na minha lista de links sugeridos.


Abração,


Marcelo Novaes

Rafael Kelsang disse...

Olá Tatá Negunijá
Estas fotos foram autorizadas pela Mametú Demberú (Sandra de Paula) (Presidente da Comunidade Afro Brasileira de Umbanda e Candomblé Santa Catarina) e pela família de Lázaro Ap. Camargo no ano de 2004 para o autor do Blog, para fins acadêmicos e de pesquisa, conforme você pode pesquisar nos arquivos da Faculdade Campo Limpo Paulista(Projetos Leituras do Cotidiano) e também nos arquivos da Faculdade Politénica de Jundiaí. Se o sr. não conhece as leis de autorização de imagens para tais fins sugiro que consulte algum advogado especialista em direitos autorais. Qualquer dúvida pode contatar o advogado da FIUTCAB Dr. Cássio Escatena. Obrigado pela audiência do Blog.
Rafael Vertuan
Diretor de Comunicação da Federação Interestadual União das Tradições e Cultura Afro Brasileira
CNPJ 01053539/0001-71